
(Tema pedido pela S. R.)
Estava a ler mensagens que vou recebendo no e-mail do blogue e deparei-me com alguns pedidos para escrever temas, aqui. E confesso que vou tentar dar uma resposta a esses pedidos. Um deles era para que eu escrevesse sobre os pedidos de desculpa: o que valem, quando devem ser feitos, quando é que resultam, de facto.
Eu diria que, para cada acção (seja intencional ou não), existe uma reacção. A reacção da outra pessoa pode ser positiva ou negativa, conforme imensos factores, como a sua personalidade, ponto de vista e sensibilidade. Podemos ter a melhor das intenções, ainda assim, a outra pessoa pode sentir-se mal com a nossa acção. Isto acontece porquê? Invariavelmente porque somos pessoas distintas. É-nos, portanto, humanamente impossível, estarmos completamente conscientes de tudo acerca da outra pessoa. Podemos tentar colocar-nos nos seus pés, mas não podemos de facto ter os seus pés e andar por ela. Isto significa que se um dia virmos uma senhora idosa a olhar para o chão para uma medalha, supondo, e acharmos que faremos um grande gesto ao aproximarmo-nos e apanharmos a medalha, para lha darmos, podemos não estar a fazer algo que aquela pessoa aprecie. Imaginem, a senhora em questão poderia sentir que era importante para ela ser ela a conseguir baixar-se e apanhar a medalha, a senhora podia também estar naquele preciso momento a querer desfazer-se da medalha e a deitar-lhe uma última olhadela, a senhora podia estar a pensar em mil e uma coisas. Que nós, meros espectadores exteriores da vida dos outros, não conseguimos saber ao certo, porque não somos aquela pessoa. Por isso, mesmo que achemos que faremos um grande gesto ao apanharmos a medalha, podemos, por ventura, estar a fazer uma acção no sentido contrário. Por exemplo, caso aquela pessoa sentisse que era verdadeiramente importante ser ela a conseguir apanhar a medalha, provar a si mesma que conseguia, que não precisava de ajuda, a nossa acção poderia ser interpretada como um julgamento, da nossa parte, de como achámos que aquela pessoa não era capaz e nós, por pena, fomos ajudar. E a vida, por ventura, é muito assim. Nunca podemos saber ao certo se as nossas acções, independentemente das nossas intenções, serão bem recebidas ou não. Porque somos diferentes. E ainda bem que o somos. A diferença faz-nos crescer e conhecer outras realidades. E em que é que isto tem que ver com o pedido de desculpas? Tudo. Se muitas vezes os pedidos de desculpa chegam até nós como consequência de acções que nos desagradaram e que, de algum modo, possam ter sido mais ou menos intencionais, depois existem as acções sem intenções. As acções que podem magoar, mas que são resultantes de um único factor: a diferença entre nós, enquanto pessoas. E para essas acções, mesmo não possuindo qualquer intenção, se magoarem, sim, eu defendo que devem de existir pedidos de desculpa. A palavra certa no momento certo. Porque um arranhão curado no momento pode desaparecer, eventualmente, passado pouquíssimo tempo. Um arranhão não curado pode evoluir para marca, para cicatriz, para dor. Demorará consequentemente mais tempo a ser curado, sob pena de nunca o ser. É importante termos noção de que, independentemente da nossa intenção ou ausência dela, as nossas acções têm consequências, e cabe-nos a nós vermos se causaram incómodo. Se causaram, há que ter coragem e responder pelas possíveis consequências e encontrar a solução melhor. Tapar os olhos, calar, fingir que nada se passou, creio, é egoísta, é egocêntrico, é não ter respeito pelo outro ser humano. E mais: como me ensinou certa vez uma mente brilhante: as pessoas só perdoam e desculpam quando sentem verdadeiramente que quem pede desculpa está realmente arrependido e/ou, entendeu a consequência da sua acção, a dor que provocou. Só nesse momento, é que as pessoas conseguem perdoar. Quando têm a certeza que o outro foi capaz de ver o que causou.